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domingo, 26 de maio de 2013

"Paga-me um café"

"Paga-me um café e conto-te
a minha vida."

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro
outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem
os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor."

por Jose Tolentino de Mendonça


Alguém me pagou um café, em troca contei-lhe a minha vida.


Beijinhos,
She versus Say 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Avanços

«As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.

O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.
Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.»
Miguel Esteves Cardoso em 'Último Volume'
Beijinhos,
She versus Say

sábado, 30 de março de 2013

Gajas que lêem

« - Não sei se vou casar. – suspirou
- Porquê?
- Oh, acho que nunca irei casar, Maria. Mas se casar, tem que ser com uma mulher que leia muito.
- Eu sei que queres uma mulher inteligente, mas não achas que para casar contigo tem que ser idiota? Por esse prisma, sim, nunca irás casar.
- Às vezes não sei porque é que ainda somos amigos… - respondeu-me tirando-me o cigarro da boca.
- Hey…esse cigarro é meu! Que nojo, já o meteste à boca cheio de micróbios de gajas incultas.
- Não como gajas incultas. Tal como te disse, só caso com uma mulher que leia. E tem de ler muito. Tem de conhecer o Kafka, o Dostoievski, Kerouac, o Bukowski, até aquele magrinho que casou com a jornalista alcoólica…ah, escapa-me o nome!
- O Hemingway?
- Sim, o Hemingway.
- Mas as mulheres que leem muito podem ter mau feitio, serem desarrumadas, ciumentas, possessivas, narcísicas. Já pensaste nisso?
- Já. Mas nunca serão enfadonhas. Já leram demasiadas histórias para quererem que a delas seja uma merda.
»

Beijinhos,
She versus Say

quinta-feira, 14 de março de 2013

ENCONTRO

Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele.
Talvez se tenha esquecido do relógio,
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo.
 Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho.
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral
ou que a mãe dele tinha morrido.
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido.
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder
a cabeça debaixo de uma almofada.
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também.
Talvez o semáforo permanecesse vermelho.
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler,
houvesse um programa que ele queria acabar de ver,
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta,
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e
o cão dele de repente começasse a vomitar.
Talvez não houvesse um telefone por perto,
não encontrasse o restaurante
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade,
incompreensível e inesperada –
ele tenha deixado de me amar
Por Hagar Peeters
Beijinhos,
She versus Say

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Dimensões

«É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo.
Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo.»
 Al Berto, "Entrevista à revista Ler (1989)"
Beijinhos,
She versus Say

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Evidências

«Mas era evidente para Dorian Gray que a verdadeira natureza dos sentidos nunca fora compreendida, e que permaneceram indomáveis e animalescos unicamente porque o mundo procura submetê-los pela abstinência ou matá-los pela flagelação, em vez de procurar transformá-los em elementos de uma nova espiritualidade, em que um elevado instinto de beleza seria a característica dominante.»
Oscar Wilde, "O Retrato de Dorian Gray"







Beijinhos,
She versus Say

sábado, 8 de dezembro de 2012

Vicio de ti

"Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes penso é bom que assim seja, para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo. Porque tu foste de um mundo incorruptível onde o tempo não passa e é aí que tu moras no eterno de ti."

Virgílio Ferreira
 

 


Beijo,
Jane

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Violino de Auschwitz

Arrepiante, brutal, fascinante, consumidor.
Acabei de o ler com o coração nas mãos, uma lágrima no canto do olho e arrepiada, muito arrepiada.


Só demonstra que de facto a música nos agarra a todos à vida, nos suspende o pensamento em locais horríveis, sejam eles psicológicos com físicos. Só demonstra que é de facto, a melhor defesa.


«Mais do que uma ode à música enquanto instrumento de resistência à barbárie, (...) é uma lição de harmonia. E  este seu violino, o arquitecto do prazer, da fraternidade, da Humanidade.» LE FIGARO


Beijinhos,
She versus Say

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Não há

"Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política.

Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

Bertolt Brecht

Porque não há pior ignorante que aquele que não quer saber.

X.o.x.o
Dorothy